“Ser sonhador num país que não acredita na arte é complicado” Duas Caras

É um dos maiores nomes do RAP moçambicano e dos PALOP. Com cerca de 20 anos de carreira, Duas Caras soma um single e, desde este mês, um EP. O maior projecto, mais do que nunca, é lançar o seu tão esperado álbum. Depois disso, tudo pode acontecer, inclusive, deixar de cantar, afinal, “ser sonhador num país que não acredita na arte é complicado”. Nesta entrevista, Duas Caras fala do seu EP, Duditos way, espreita o passado da música moçambicana e perspectiva o futuro. Duas Caras afirma que, depois de lançar se CD, tudo pode acontecer, inclusive deixar de cantar.

Duditos way intitula seu EP e tem inspiração num filme. Como relaciona a música ao cinema no que diz respeito à sua criatividade artística?
Sempre fui um amante da sétima arte. O meu pai, quando eu ainda estava no ensino primário, dava-me dinheiro para alugar filmes apenas nos fins-de-semana. Mas, como minha mãe nessa altura já me dava dinheiro de chapa, eu juntava as moedas e alugava os filmes mesmo durante o meio de semana. Foi graças ao amor pelo cinema que aprendi a falar inglês, o que me deu bons resultados na escola. O meu gosto pelo cinema chegou antes da música, daí que esteja sempre presente nas minhas letras.

A música é um pretexto para recontar estórias que lhe fascinam no cinema?
Não sei. Mas tento, através da escrita, fazer com que as pessoas tenham imagens do que digo nas minhas letras. É como se estivesse a pintar imagens porque, quando rimo, as pessoas conseguem visualizar alguma coisa.

O título completo do seu EP é Duditos way (o homem que chegava tarde), o que nos remete para o seu CD a solo que tarda chegar. Vê nisso um problema ou como algo que faz parte de um processo?
Sou um homem que vive muito de experiências. Sempre gostei de experimentar coisas. Já experimentei coisas boas e já experimentei coisas más, o que só me ajudou a crescer. Hoje em dia sou uma pessoa com objectivos claros e com os pés bem assentes no chão. Se antes não lancei um álbum a solo, é que, por algum motivo, Deus (hoje sou mais crente a Ele, por vários motivos) quis que fosse assim. Hoje estou na altura certa para fazer um álbum porque tenho maturidade para o efeito, à altura do que as pessoas sempre esperaram de mim. Tenho maior discernimento e acredito que o meu álbum vai ser uma coisa memorável. Já comecei a trabalhar no mesmo e acredito que até meados de 2018 estará lançado. A julgar pela recepção que tenho de Duditos way, acho que estou num bom caminho. Sei que a expectativa em relação ao meu primeiro álbum é muito grande, então tenho uma batata quente nas mãos.

O que mais lhe interessa como rapper é contar estórias ou exprimir-se?
Conto estórias a minha maneira. Às vezes uso o meu quotidiano ou de pessoas que convivem comigo. Gosto disso e não, por exemplo, de abordar assuntos políticos…

Mas tem algumas músicas que nos remetem a isso, por exemplo, no Tondje Mcee…
Ah, sim. De vez em quando surge uma inspiração… O que quero dizer é que não sou muito de entrar nessa onda de críticas explícitas. Sou mais da subtileza e da parte poética. Acho que aí reside a beleza da música, dizer as coisas de forma diferente, poetizando. Apesar de gostar mais de um Street RAP, também trago aspectos para reflexão nos meus temas.

É um rapper com duas caras, como seu pseudónimo, de tal forma que lhe encontramos a fazer uma música bem madura e, às vezes, efémera (estou a pensar num “Dinda”). Como se explica esta oscilação?
Não sei explicar, honestamente. Se calhar sejam factores que escapam do meu controlo. Músicas como “Dinda” aconteceram numa circunstância de estarmos no estúdio e ter ali um beat que sugere determinadas coisas, como festas. Mas também é verdade que o RAP não é só crítica. Gosto de todas vertentes do Hip-Hop e na diversidade está a maior riqueza deste estilo.

Preocupa-lhe ser abrangente?
Sempre fui apologista da abrangência e a minha música é um espelho disso. O que gosto mesmo de fazer é agradar a gregos e troianos. E, ao longo dos tempos, consegui agradar pessoas que até não gostam do RAP. Há muita gente que me encontra e diz não gosta do RAP, mas aprecia a minha música. Este foi sempre o meu objectivo: conseguir chegar ao maior número de pessoas possível, com um estilo que já passou por muitos estigmas. O Hip-Hop é um estilo influente, uma escola por onde passaram muitos músicos – o próprio Mr. Bow, que neste momento é um dos artistas populares do país, passou pelo Hip-Hop. Mais do que qualquer outro estilo musical, este existe em qualquer parte do mundo.

Duditos way tem cinco músicas. Há alguns anos lançou o single Tondje Mcee, com quatro. Qual é o propósito, quando começa assim?
Na verdade, não resolvi começar assim. Se calhar, tivesse lançado um álbum a solo, se não tivesse lançado o CD da GPRO. Pelas circunstâncias da altura, o mais viável era fazer um álbum com dois rappers, a título colectivo. E isso foi acontecendo ao longo da minha trajectória: os três álbuns da GPRO e, depois, Xtaka Zero. Se calhar faltou alguma garra e perspicácia para conseguir me focar num álbum a solo. Tive alguns desnortes ao longo da minha carreira, alguns baixos que me impediram trabalhar com foco num álbum a solo. Feliz ou infelizmente, hoje estou mais preocupado com isso porque é uma eterna cobrança dos meus fãs e dos que acompanham o Hip-Hop.

Seria injusto para o Hip-Hop?
Acho que sim. Tenho essa missão. Estou 100% focado nisso e acredito que a história do Hip-Hop será reescrita de algum modo, com o álbum que irei lançar.

É dos rappers moçambicanos mais mediáticos, já com 20 anos de carreira. O que traduz esse tempo?
Ainda não havia pensado nisso, mas acho que as coisas não acontecem por acaso. Dediquei quase a maior parte da minha vida à causa do Hip-Hop. E isso vai continuar. Posso até não pegar mais no microfone para rimar, mas sempre estarei ligado ao Hip-Hop, ainda que de forma indirecta. Até porque hoje tenho alguns projectos em andamento, como o Repódromo, uma plataforma para lançar novos valores do Hip-Hop. Já estivemos em Angola e, em 2018, pretendemos fazer uma digressão nacional, envolvendo todas as capitais províncias, e espectáculos de maior dimensão, nomeadamente, batalhas internacionais, com todos países de língua portuguesa. Esse é um dos objectivos para 2018. Depois do álbum, não sei se voltarei a lançar alguma coisa.

Está a pensar em acabar com o Hip-Hop?
Só não sei se vou continuar a rimar. É a única coisa que eu não tenho a certeza. Nos próximos cinco anos pretendo fazer shows grandes porque ao longo da carreira, sobretudo nos últimos tempos, fiz muitos shows nos bairros. Foi uma boa experiência, mas nesta altura só farei shows grandes e só os farei quando se justificar. Em geral, a minha ideia é deixar um legado para as próximas gerações porque tenho notado que esta geração abraçou uma nova forma de estar no Hip-Hop com a qual não concordo muito. Mas pronto, existe sempre esse conflito de gerações. O mesmo aconteceu quando comecei no Hip-Hop. Enfim, como um dos rappers com mais tempo na estrada, tenho a obrigação de deixar um legado.

Quais são as suas maiores conquistas, frustrações e desafios?
O maior desafio sempre foi levar o Hip-Hop a mais gente. Sofremos muito estigma no início das nossas carreiras e, agora, sinto que conseguimos nos impor. Antes éramos vistos como marginais, mas, especialmente depois de “País da marrabenta”, as pessoas começaram a olhar-nos com outros olhos. Quanto à frustração, se calhar foi o desejo de querer fazer coisas grandes, mas não ter apoio necessário. Ser sonhador num país de pessoas que não acreditam na arte é muito complicado. Há países mais pobres e mais pequenos do que o nosso e têm amor pela sua cultura. A maior conquista são os meus fãs, que me acompanharam ao longo da minha trajectória. Foram eles que me motivaram para continuar ao longo desse tempo, conturbados. Já pensei em desistir várias vezes. Mas eles sempre iam-me buscar.

Desistir apenas do Hip-Hop ou de música em geral?
De música em geral. Já tive paragens prolongadas, de um ou dois anos. Mas sempre alguém me dizia que tinha que continuar. Já atirei a toalha ao chão, mesmo sem despedida.

Quando fala de um projecto de cinco anos, está a pensar em despedir-se?
Sinceramente, não sei. Tudo pode acontecer. A única certeza que tenho é que nos próximos cinco anos terei mais trabalho, com um Duas Caras mais omnipresente. Pode ser a melhor forma de dizer adeus.

Agora é mais pelos fãs?
É por eles e por mim também. Chegou a altura de mostrar às pessoas aquilo que sempre esperaram de mim. Preciso de lançar este álbum. Não ficaria em paz se não o lançasse.

“País da marrabenta” mudou alguma coisa no que vocês queriam do Hip-Hop naquela altura?
Só ajudou. É verdade que, naquela altura, sofremos alguma censura. Mas, como toda a censura tem efeito contrário… isso só nos beneficiou. É engraçado que essa música foi algo do acaso. Naquela altura já tínhamos fechado o projecto do primeiro álbum da GPRO, Um passo em frente, e faltava um tema que mexesse com as massas e abordasse a conjuntura social. E a coisa aconteceu assim de forma casual. Graças a Deus as coisas correram como correram e até hoje somos conhecidos como os rapazes que fizeram “País da marrabenta”.

Uma das músicas de Duditos way é “Vale do rei”, que nos diz, a certa altura: “Quem comanda é Kara Boss”. Esta frase representa a convicção de se julgar, por exemplo, o rapper de vanguarda em Moçambique?  
Há uma vertente do Hip-Hop em que o rapper parte do pressuposto de que é melhor que todos. Todo o rapper acha-se melhor e existem faixas em que o MC esmera-se para mostrar sua capacidade lírica. “Vale do rei” foi feita nesse sentido. Não significa que sou um rei ou algo assim…

Pode ser que queira significar que é um rapper de vanguarda…
Pode ser. Os anos em que me encontro na estrada, se calhar, têm o seu valor e as pessoas sempre acabam fazendo as suas comparações. Isto é muito comum no RAP, mas os títulos não fazem o Homem. Sempre fui humilde nesse aspecto de ser ou não o melhor. Até porque acho que existem rappers que são melhores que eu, em alguns aspectos. Não sou o que reúne todas as habilidades. O que tenho certeza é que não sou o pior rapper.

É um rapper com títulos curiosos: Além de “Vale do rei”, tem “Vitz amarelo” ou “Jet 7”. Como acontecem seus títulos?
Curiosamente, há dias alguém dizia que não concorda muito com o título do meu EP. O título pode não fazer sentido agora, mas vai fazer sentido depois. As pessoas podem pensar que dei o título de forma aleatória, mas não foi. Sempre analiso os títulos que dou. Detesto títulos óbvios.

É o caso de “Talhe da Foice”, o título da coluna de Machado da Graça?
Esse foi-me sugerido pelo Djo, na altura. E ficou.

Como acontecem suas músicas?
Muitas vezes, surgem de uma frase que alguém diz. Logo que capto uma frase que gosto, registo no telemóvel e a coisa começa a partir daí. Depois, já que os produtores não têm os beats logo, pego num, geralmente americano, e termino os rabiscos. Estando pronto, aí entro em estúdio. Sou muito exigente com os beats.

Existe algum produtor que lhe conhece melhor?
Proofless. Ele trabalhou muito comigo. Felizmente ou infelizmente ele está no Brasil. Embora tenha-me deixado com bons beats antes de viajar, não os usei para EP. Proofless é o responsável por muitos sucessos meus.

“Poe um like” faz um retrato do impacto das redes sociais na vida dos jovens. É um cenário que lhe preocupa, na mesma proporção que “Geração tv”?
“Poe um like” surgiu do facto de eu ver muita gente, inclusive pessoas próximas a mim, encarar as redes como espaço de exposição. As redes sociais são facas com dois gumes. Podem nos levar para o bem e para o mal. Eu próprio já fui vítima das redes e acho que as pessoas ainda não percebem para que funcionam. Acima de tudo, temos que saber que no Facebook e Instagram não é para partilhar tudo sobre nossa vida, porque, como costumo dizer, ninguém gosta da felicidade do outro.

Estima muito a camisola 10, a qual foi “acusado” de ter traído, quando se meteu com o pandza. Considera esse cenário uma mancha na carreira?
Há dias, estava na varanda e a tv ligada. Ouvi um pastor dizer que não nos devemos deixar influenciar por aquilo que as pessoas querem que nós sejamos. Temos que ser aquilo que queremos. Um artista exprime o que vai à alma, criando, sem se deixar influenciar pelas opiniões das pessoas. E isso foi o que fui fazendo ao longo da minha carreira. É verdade que há escolhas que eu fiz e que não foram felizes, mas dos acertos não se aprende quase nada. Felizmente, consegui aprender dos meus erros.

Foi um erro experimentar o pandza?
Na verdade, nem consideraria um erro. Se calhar teve de acontecer para eu poder ser quem sou hoje. É como disse, sempre gostei de experimentar coisas. Se tivesse dado certo, se calhar não estaríamos aqui a falar disso. Mas aquele não era o estilo certo para mim.

O pandza, digamos, em confronto com RAP, deu protagonismo à música moçambicana. Fortaleceu grupos e fez-se eventos com apenas músicos moçambicanos como nunca tinha acontecido antes. Se fosse para ter tudo isto de volta, voltaria a fazer pandza ou outro estilo?
Diferente de outros rappers que podem fazer outros estilos e ninguém se chateia, eu sou criticado quando as pessoas acham que estou a sair do padrão. Mas enfim… hoje se calhar optava por ficar no RAP porque é a coisa que melhor faço. Quem me dera que eu soubesse disso na altura. Às vezes não temos a real dimensão daquilo que somos. Acho que nunca soube o quão grande sou. Sempre estive dentro da minha bolha, tentando dar um passo em frente.

Alguns rappers, quando tentaram regressar ao RAP, depois de abraçar o pandza, não conseguiram se adaptar. Teve dificuldade, digamos, de reinserção?
Não, não tive. Sou muito versátil e acho que isso parte dos meus gostos musicais. Pode parecer estranho, mas eu não oiço muito RAP e muito menos RAP moçambicano ou português. Oiço RAP americano porque gosto, mas não são muitos.

Jay-Z e Snoop Dogg…
Sempre. Snoop Dogg cada vez menos. Mas Jay-Z é o que reúne todas as habilidades que permitem um rapper que se quer afirmar inspirar-se. É o maior exemplo de rapper porque é bem-sucedido, excepcional, enfim, um espelho. É um rapper com uma capacidade fora do sério.

 “Não há mola”, outro som de Duditos way, é daquelas músicas que, embora com conteúdo grave, faz-me pensar que foi feita com muita espontaneidade. É fácil fazer RAP, para ti?
Não, não é fácil. A primeira coisa que eu penso quando projecto uma música é agradar as pessoas. E isso é o mais difícil. Muitos rappers rimam ou cantam para as pessoas que gostam do estilo. Eu não. Não me preocupo com os rappers e a maior parte dos meus fãs não cantam RAP e nem gostam tanto do estilo. Desde que comecei com os meus Freestyle no Hip-Hop Time da Rádio Cidade, quando eu rimava e alguém não esboçava um sorriso, não me sentia bem. O retorno para mim é importante.

Qual é a maior recompensa que espera do RAP?
Material não diria, porque não espero muito. Mas, de certeza, o meu nome vai constar na história do Hip-Hop no futuro, se Deus quiser. Acho que o meu maior legado foi ter aberto portas para gerações que hoje em dia conseguem fazer grandes coisas. Comecei numa altura em que só nos pagavam 500 meticais para fazer um show. Hoje em dia os rappers cobram 50 mil para fazer um show. Isso não foi da noite para o dia. Houve grupos como GPRO que pavimentaram o chão todo, para que os novos artistas pudessem se beneficiar desta mediatização e cachés que têm agora. Enfim, alguém teve que fazer o trabalho “sujo”.

Como quer ser lembrado pelos que gostam do Hip-Hop moçambicano?
Apenas como um rapper que deu os melhores anos da sua vida ao RAP; que deu de tudo e trocou tudo pelo RAP e que abriu portas para que os outros tivessem carreiras brilhantes.

Potencialidades e fragilidades do RAP moçambicano?
A potencialidade é a diversidade, coisa que não existe noutros cantos, pelo menos nos países de língua portuguesa. Fragilidade é a própria língua portuguesa. Rimar em português não nos beneficia por sermos poucos países falantes. A língua ainda é um entrave para que possamos alcançar outros patamares e outros mercados. E o nosso mercado ainda é muito pequeno. Ainda não conseguimos competir de igual para igual com Angola, por exemplo. A parte capital contribui para não conseguirmos fazer muitas coisas. Mas estamos a avançar. Em 20 anos, teremos um mercado melhor.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?
Sugiro Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa, e o filme Papillon, dirigido por Franklin Schaffner.

Perfil
Duas Caras é o pseudónimo de Hermínio Chissano, e nasceu em Agosto de 1978. O rapper tornou-se conhecido com o lançamento do álbum Um passo em frente, do colectivo GPRO. Com o mesmo grupo, lançou mais dois discos, Na linha da frente e, depois, Foreva. A solo, lançou o single Tondje Mcee e EP Duditos way (o homem que chegava tarde).

Via O pais

 

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