“Fomos mandatados para o pôr coxo” dizem os malfeitores

Moçambique

José Jaime Macuane, professor universitário e comentador político, foi raptado esta segunda-feira(23) nas proximidades da sua residência, no bairro da Coop, na capital moçambicana, e baleado nas duas pernas por desconhecidos, no distrito de Marracuene, na província de Maputo, que tinham a missão de “lhe pôr coxo”. A Polícia da República de Moçambique (PRM), e o Governo do partido Frelimo, sempre célere a esclarecer ataques atribuídos “a homens armados da Renamo”, ainda não se pronunciaram sobre mais este atentado. Este modus operandi é similar ao revelado ao SAVANA e ao @Verdade por um agente das Forças Especiais da PRM que é membro de um esquadrão de elite que, entre outras actividades, tem eliminado alvos previamente identificados pelos Comandantes.

O académico, que é docente Auxiliar da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, foi raptado quando “estava a sair de casa, ia trabalhar por volta das 8h30”, começou por explicar aos jornalistas Pedro Guambe, o sogro da vítima.

“Atravessou um carro, barrou-lhe o caminho. Quando ele sai do carro, parecia um acidente, pegaram nele, agrediram-no”, referiu Guambe acrescentando que em seguida os desconhecidos colocaram José Jaime numa viatura deles e “saíram dali, entraram na (avenida) Joaquim Chissano, andaram até a (avenida) Acordos de Lusaka e ligaram para a avenida das Forças Populares (FPLM). Das Forças Populares seguiram pela (avenida) Julius Nyerere até Magoanine e depois para a CMC, depois apanharam a (estrada) Circular (de Maputo) e voltaram como se estivessem a voltar para a cidade (de Maputo)”.

Um trajecto, diga-se, bastante movimentado, à hora do rapto, e onde estariam posicionados vários agentes das PRM, não apenas os polícias de trânsito nos cruzamentos mas também agentes da polícia de protecção que desde há cerca de 3 semanas, que se propalam manifestações populares, mostram a sua musculatura pela “cidade das acácias”.

De acordo com a fonte familiar, chegados a um troço da estrada Circular, já no distrito de Marracuene, os raptores “puseram-lhe um gorro na cabeça e entraram numa picada onde disseram “sai do carro”, e deitaram-no no lixo”.

“Disseram a ele aquilo que nos disse, que foram mandatados, não disseram quem era o mandante, para lhe pôr coxo”, declarou Pedro Guambe esclarecendo que Macuane em nenhum momento anterior mencionou à sua família estar a sofrer algum tipo de ameaças relacionadas com o seu trabalho académico ou de comentador de assuntos políticos, económicos e sociais.

A fonte detalhou que José Jaime Macuane foi atingido “por quatro tiros, todos entraram e saíram mas um ao sair atingiu a perna direita, a coxa direita, e atingiu o fémur e essa ficou lá”.

O académico foi localizado algumas horas depois do seu rapto por cidadãos anónimos que o transportaram para o Centro de Saúde de Marracuene, onde recebeu os primeiros cuidados médicos acabando por ser transferido, após a família ser prevenida, para uma unidade hospitalar privada na cidade de Maputo onde repousa enquanto os médicos se preparam para retirar a bala que ficou alojada no seu fémur.

Macuane, que é doutorado em Ciência Política (democratização e instituições políticas) pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e também sócio-fundador da MAP Consultoria (especializada em governação e desenvolvimento), é comentador de política residente no canal privado de televisão STV.

“Triste sina de um país cujos cidadãos podem ser a qualquer momento abatidos como cães”

Um agente da Unidade de Intervenção Rápida da PRM revelou em entrevista aos jornais SAVANA e @Verdade, em Março deste ano, que pertence a uma unidade de elite que tem realizado missões de eliminação de cidadãos civis e armados em vários locais de Moçambique, inclusive em cidades, desde 2012, sob orientação de pessoas ligadas aos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE).

O agente da força de elite revelou ter realizado “missões” de abate de cidadãos mesmo na capital do país. “Nós em Maputo, nunca usamos armas contra pessoas militares, eram civis. Conforme eu disse dão-me foto e depois ouves que desconhecido foi encontrado morto na zona x”. A fonte declarou na altura que o assassinato até hoje não esclarecido de outro docente da Universidade Eduardo Mondlane foi também uma das “missões” das Forças Especiais de elite. “Aquele era por causa de falar muito mal do Governo”, declarou o agente.

Em jeito de profecia, José Jaime Macuane escreveu a 12 de Abril na rede social Facebook, a propósito do assassinato a 11 de Abril do Procurador Marcelino Vilanculos, que estava a pensar “Na triste sina de um país cujos cidadãos podem ser a qualquer momento abatidos como cães”.

Via @Verdade

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